Artigo jornal estadão , blog dos colégios, edição 11.11.2016, bem oportuna e necessária. Vale conferir.
O termo “empatia” é usado em educação como a
capacidade de educandos e educadores se identificarem com o outro, sabendo se
colocar no lugar do outro do ponto de vista tanto cognitivo como afetivo.
Renato Janine Ribeiro, na roda de conversa sobre empatia na educação de
crianças e jovens organizada pelo Instituto Alana e pela Ashoka, diz que o
termo “empatia” significa “sentir e sofrer no lugar do outro; pathos é a
palavra grega que significa paixão, relacionada ao sofrimento”.
Na Filosofia, continua
Renato Janine Ribeiro, “pathos pode se opor a duas outras palavras: “ação”, em
que somos ativos (na paixão somos passivos) e “razão” (na paixão somos
irracionais)”. Portanto, empatia tem um sentido de passividade e
irracionalidade. Ainda aponta que, na tradição filosófica, “quando se adota uma
conduta baseada na racionalidade, é possível sermos mais donos do nosso próprio
destino, diferentemente de quando agimos pela paixão, em que somos possuídos
pelos sentimentos (dor ou alegria)”.
Citando Rousseau, Renato Janine Ribeiro também
diferencia doutrinação de educação. “A palavra ‘educação’ em latim significa
justamente sair, ir (ducare) para fora (ex), ou seja, o educando sai de uma
situação para ir para outra”. Afirma que, do seu ponto de vista, “a empatia não
é natural, ela é formada, desenvolvida no processo educacional”.
Já o termo
“solidariedade” significa “caráter, condição ou estado de solidário
1. compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras
e cada uma delas a todas 2. laço ou ligação mútua entre duas ou
muitas coisas ou pessoas, dependentes umas das outras (…) 3.sentimento de simpatia, ternura
ou piedade pelos pobres, pelos desprotegidos, pelos que sofrem, pelos
injustiçados etc. 4. manifestações desse sentimento com o
intuito de confortar, consolar, oferecer ajuda etc. (…) 5. cooperação ou assistência moral que se
manifesta ou se testemunha a alguém, em quaisquer circunstâncias (boas ou más)
(…)”.
Se buscarmos o termo
“solidário” no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa vamos encontrar:
1.
em que há responsabilidade recíproca ou interesse comum (…) 2. que depende um do outro;
interdependente, recíproco 3. pronto a consolar, apoiar, defender ou
acompanhar alguém em alguma contingência (…) 4. que sente do mesmo modo, partilha dos
mesmos interesses, opiniões, sentimentos etc., concordando, dando apoio;
irmanado (…).[1]
[1] Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2007.
Como pode ser
constatado, o termo “solidariedade” tem um significado muito próximo ao de
“empatia”, pois também está relacionado a compartilhar o sofrimento do outro.
Entretanto, a solidariedade tem um componente para além do sentir, que é o da
ação. Não se restringe apenas a sofrer junto, mas conforta, propõe ajuda
Justamente por isso é
que no Colégio Equipe usamos o termo “solidariedade” e não “empatia” como um
dos valores que sustentam a nossa prática na direção de uma educação
transformadora. Pretendemos que nossos alunos sejam capazes de se colocar no
lugar do outro, principalmente do outro que sofre, ou seja, das pessoas menos
favorecidas da nossa sociedade, mas também que sejam capazes de agir, de tomar
atitudes que possam aliviar, confortar e, por que não, até mesmo eliminar o
sofrimento do outro. Que sejam capazes, portanto, de se indignar com as
injustiças e as desigualdades sociais e de agir para tornar nossa sociedade
menos desigual, mais justa e humana.
Mas como ensinar solidariedade? Obviamente,
não é incluindo-a como conteúdo a ser ensinado em algumas das disciplinas
curriculares. A escola deve, em sua concepção de ensino e em suas escolhas
metodológicas, criar condições para que os alunos desenvolvam atitudes
solidárias. E como é um conceito relacionado à ação e não apenas ao sentimento
e à cognição, a escola não só deve propor atividades que possam vir a colaborar
para o desenvolvimento dessa postura como também deve incentivar que os
próprios alunos criem e realizem ações nessa direção.
Há inúmeras situações
didáticas no Equipe que visam desenvolver a solidariedade. Só para citar uma
delas: o trabalho de monitoria entre ciclos e séries. Nele, alunos mais velhos
acompanham o estudo dos mais novos ajudando-os não só no aprendizado dos
conteúdos, como também a superar eventuais dificuldades. Como organizamos esse
trabalho? Em primeiro lugar, não escolhemos os monitores – os alunos que querem
participar dessa atividade se inscrevem. Segundo, os alunos interessados fazem
uma formação em que discutem entre si e com educadores o papel de um monitor e
também reveem os conteúdos das situações didáticas que vivenciarão. Também
recebem informações pedagógicas sobre os alunos que vão orientar.
Depois atuam com eles tanto em sala de aula
como em trabalhos de campo (atividade em que os alunos vão colher dados para
refletir sobre uma questão de estudo). E uma última etapa, e não menos
importante, é discutir e compartilhar com os educadores sua opinião sobre o
trabalho do seu grupo de alunos e a sua própria atuação. Tanto os alunos
monitores como os monitorados avaliam muito positivamente essa experiência.
Outros exemplos
poderiam ser descritos. Propomos trabalhos em grupos; há atividades de
monitoria também entre colegas da mesma classe; a cada final de bimestre ou
trimestre os alunos fazem uma autoavaliação do seu processo de aprendizagem,
assim como avaliam as propostas didáticas da escola e de seus educadores,
discutindo os diferentes pontos de vista sobre elas; fazem trabalhos de campo
em realidades sociais e culturais diversas da que estão inseridos; são
incentivados a propor atividades na escola por meio do grêmio estudantil ou do
conselho de representantes de alunos; assim como oferecemos a possibilidade de
atuarem como mediadores de leitura, de brincadeiras e de arte com crianças e
jovens de outras realidades sociais numa parceria com o Instituto Equipe.
Entretanto, cabe
destacar que para uma educação que forme pessoas solidárias é fundamental que a
escola e seus educadores estejam predispostos a aprender com os educandos Não
aprender os conteúdos específicos do saber sistematizado pela humanidade que
devem ensinar, mas aprender como ensinar, aprender que esses saberes devem ser
ressignificados pelas novas gerações. Só com novos sentidos é que se pode chegar
ao novo e propiciar mudanças, sempre na direção de uma sociedade mais justa e
humana.
Luciana Fevorini
Diretora
Escolar do Colégio Equipe
Este
texto faz parte da publicação “A importância da empatia na educação” realizada
pela Fundação Alana e Ashoka. Todos os textos podem ser acessados através desse link.
















