sábado, 26 de novembro de 2016

EM NOSSO ENTORNO - HORTA EXEMPLAR

Nosso entorno é muito rico, diversificado e vai ser objeto de trabalho interdisciplinar em 2017. Abaixo a reportagem da horta que Antonio Cabral mantém há mais de 30 anos.


Cabral e o caminho das águasLiana John - 19/12/2014 às 11:04



“Não descobri o Brasil, mas descobri alfaces!”
… assim que o mineiro de Diamantina, Antonio Cabral Ramos, abre o portão e o sorriso para receber nossa visita. Hoje com 62 anos, ele conta que se instalou na região de Campinas, São Paulo, há 42 anos. De início, arrumou um trabalho como escrevente de cartório. Mas o escritório não era para ele. Seu negócio sempre foi a lavoura. “A agricultura estava na pele”, costuma dizer. Em seus 37 hectares no bairro de Monte Belo, ele cultiva há 30 anos a mesma terra, mantendo a produtividade com atenção e inovação. E fé, sobretudo em Santo Antonio, de quem empresta o nome e a quem dedicou uma capelinha junto à moradia da família.
Desde o início, Cabral optou pelas hortaliças, em especial, alfaces. Tem uma nascente na propriedade de 37 hectares e, com a devida outorga de uso, bombeia a água morro acima e estoca em caixas d’água, para depois irrigar os canteiros com a ajuda da gravidade.
Lá atrás, o mercado de Campinas não era bom, então ele colhia suas verduras de madrugada para sair às 5 da manhã rumo a Ribeirão Preto, a 220 km, onde obtinha preços melhores. Agora já não precisa viajar tanto, mas acordar de madrugada ainda È sua rotina. “Produtor de hortaliças precisa mudar, se atualizar, senão não consegue se sustentar”, afirma. De fato, a margem de lucro é pequena, a dependência do clima é grande e o mercado flutua muito. Quem não se mantém atento fica para trás.
Assim, quando surgiu uma oportunidade, Cabral fez um curso de hidroponia e aos poucos montou suas estufas. Hoje mantém as plantações na terra, no alto do morro, onde a exposição ao sol é melhor, e lida com as estufas de hidroponia no meio, com mais um campo morro abaixo, para verduras menos exigentes e para a plantação de banana, que está começando. As instalações são projetos pessoais, feitas aos poucos, com um cantinho para sentar, uma visada para a matinha lá embaixo, detalhes de quem vive ali de fato, com gosto pelo que faz.
Depois de instalar a hidroponia, em 2002 foi a vez da rotação de culturas e da adubação verde: “para melhorar essa terra já cansada e recuperar a produtividade do começo, dos primeiros anos”, argumenta. O enraizamento melhorou, a erosão diminuiu. Então Cabral passou a usar produtos biológicos, distribuindo-os por infiltração, com o trator. “… para melhorar as qualidades das plantas, para diminuir o problema de Fusarium (um fungo que ataca muitas culturas)”, explica o produtor. “Porque os biológicos s„o retirados da natureza, desenvolvidos em laboratório e, em seguida, aplicados. Para continuar produzindo alface com bastante qualidade”.
Em 2012, preocupado com sua dependência em relação à água da nascente e de olho na economia de energia, Antonio Cabral tomou coragem e um empréstimo no Banco do Brasil e mudou todo o sistema de irrigação. Instalou canos para captar água de chuva no telhado do barracão, onde são lavadas as verduras, e nas áreas cimentadas perto das estufas de hidroponia. Canalizou até os ralos do chão do barracão, para reutilizar a água de lavagem das verduras. Construiu um reservatório para estocar essa água. Trocou o motor de 40 HP por um de 7,5 HP, com grande economia de energia. E substituiu os antigos aspersores de irrigação por microaspersores, reduzindo o desperdício.
Quando tudo ficou pronto veio a crise da água de 2014. Parece que Cabral pressentiu a aproximação da seca. Não deu tempo de encher o reservatório com água de chuva, então ainda n„o foi possível trocar a distribuição dos produtos biológicos feita pelo trator para o novo sistema de irrigação. Mas o novo caminho das águas já está funcionando, com o reuso da lavagem e o reaproveitamento da água da hidroponia no campo localizado morro abaixo, além dos microaspersores. O resultado é a manutenção da produtividade e da qualidade dos produtos, apesar da forte seca.
“Tenho clientes fieis há 25 anos, pessoas que chegam no mercado e não compram se o vendedor colocar outra verdura”, conta Antonio Cabral, enquanto colhe um pé de alface de encher os braços. … para se orgulhar mesmo: as folhas exibem um vigor bem difícil de encontrar em outro lugar. E, conforme aprendemos, ainda embutem economia de energia e racionalização no uso da água!

 Com inovação e atenção constante, Antonio Cabral garante produtividade e hortaliças de melhor qualidade.


terça-feira, 22 de novembro de 2016

BURNOUT, DEPRESSÃO E ANSIEDADE - Abordagens

Burnout. Depressão. Ansiedade. Como desatar esses nós

Mudar hábitos, reconhecer limites, confiar nos colegas. Aprenda com três professores que viveram essas dores

TEXTOKARINA PADIAL DESIGN PATRICK CASSIMIRO EDIÇÃO RODRIGO RATIER
Em algum momento da vida, todo professor já se sentiu o
pior dos piores. Alguns vivem um esgotamento total de suas forças. Outros experimentam uma tristeza profunda, amplificada pela certeza de que nada vale a pena. Há, ainda, quem não consiga viver no presente, bloqueado pela previsão de um futuro insuportável diante dos olhos. Quando essas sensações são fortes e persistentes, elas se tornam um problema incapacitante. Atendem por nomes cada vez mais comuns nas escolas brasileiras. Burnout. Depressão. Ansiedade. E a cabeça dá um nó.
Se você já viveu essas situações, saiba que você não está sozinho. Embora não existam estatísticas nacionais recentes, sabe-se - na verdade, sente-se no dia a dia - que o problema é enorme. Os dados de São Paulo são um indício. Em 2015, os transtornos mentais e comportamentais lideraram as causas de licença na rede estadual, com 28% dos casos. Na rede municipal, eles contribuíram para um número absurdo: a quantidade de afastamentos superou o total de professores em sala. Em 2012, o Atlas de Gestão de Pessoas registrou 64,2 mil licenças diante de 58,5 mil servidores ativos.
A gente sabe que boa parte das causas dessa verdadeira epidemia tem raízes estruturais. Más condições de trabalho, muitos alunos por classe, estrutura precária, salários baixos e violência. Tudo isso reflete no ensino - e, claro, na sua saúde. Atacar esses problemas externos é fundamental. Nós já escrevemos muito sobre eles e vamos continuar escrevendo. Mas nesta reportagem a gente pede licença para falar com quem mais importa: você.
Queremos trocar ideias sobre esses problemas - que não são frescura! - e, como a gente sempre faz, pensar em soluções para dar a volta por cima. A boa notícia é que as estratégias de enfrentamento dos nós mentais estão ao alcance de todos. Para a pesquisadora Mary Sandra Carlotto, que estudou a exaustão profissional em seu doutorado em Psicologia pela Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, um bom começo é o seguinte: pensar nas situações que nos desestabilizam e nas possibilidades de lidar com elas, identificando as mais viáveis.
Seguimos com esse conselho em mente e apresentamos, nos quadros abaixo, formas concretas de encarar o problema. Mas podemos começar sem receituário? Vamos falar de histórias reais como a de Everson Melo, educador que, na primeira aula do curso de Pedagogia, não teve dúvida do que queria fazer pelo resto da vida: lecionar. Inspirou-se na esposa, que conheceu ainda adolescente, na paixão pela Educação. Nunca pensou em largar as aulas. Nunca até maio deste ano, quando precisou se afastar da escola por 35 dias. Everson não conseguia mais entrar em sala. Diagnóstico: estresse agudo.


O disparador foi um fator externo. Por causa da reestruturação na rede de Luziânia, cidade próxima a Brasília, a classe de 5o ano da EM Dilma Roriz Medeiros ficou apinhada de gente. Pulou de 25 para 49 alunos. "Eu ficava encostado na parede como uma lagartixa, numa sala sem ventilador nem cortina. O sol batia na lousa e, para enxergar, os alunos tinham que mudar de lugar várias vezes ao dia", conta.
Foram cinco meses até o momento do "não dá mais". Afastado por ordem da psiquiatra, Everson deu início ao tratamento com remédios e muita reflexão. A virada aconteceu quando o professor começou a aceitar seus limites. "A médica queria
prorrogar a licença, mas eu mesmo pedi para voltar. Já tinha conseguido elaborar na minha cabeça que não carregaria o mundo inteiro nas costas."
Everson encontrou a paz ao reconhecer limites e não se concentrar nas emoções, mas sim, nos episódios que a geram. Antes de saber de tudo isso, porém, o professor goiano enfrentou cinco meses de culpa por não dar mais conta de ensinar.
"Comecei a me sentir incompetente e desmotivado. Perdi o idealismo", relembra. A gota d'água veio quando tentava separar uma briga entre duas alunas e uma delas começou a gritar com ele. Veio à sua cabeça a imagem de que ele empurrava a garota escada abaixo. Ficou desesperado e saiu correndo e chorando até a sala da diretora.
Os sintomas apresentados por Everson eram próximos aos do burnout, embora ele não tenha tido esse diagnóstico. Apoiada no tripé exaustão emocional, diminuição da realização no trabalho e despersonalização (insensibilidade ou afastamento
excessivo em relação ao público atendido, no caso, os alunos), a síndrome do esgotamento profissional, como também é chamada, tem entre os docentes as maiores vítimas.
Burnout é um quadro sério que requer mudanças rápidas no trabalho. Algo que nem sempre acontece. Quando o professor voltou à escola, ele foi transferido para uma sala maior, com ventilador e cortina, mas junto com os mesmos 49 alunos. Mesmo assim, o pouco que foi feito já ajudou. "Se não conseguimos eliminar a fonte principal do problema, já melhora se resolvemos outras, mesmo que nem sejam tão importantes. A carga tensional que elas geram é subtraída da quantidade total de estresse que estamos experimentando. Assim, ficamos sujeitos a níveis menores de tensão", diz Marilda Lipp, diretora do Centro Psicológico do Controle do Stress e organizadora do livro O Stress do Professor.





A vida num entorno complicado
Claudio Menezes Maia é de uma família de professores - pai, mãe, irmão, tias e esposa. É outro caso que nunca titubeou na escolha da carreira que seguiria. Formou-se em Letras e leciona para o Ensino Fundamental e Médio, no Ciep 513 George Savalla Gomes - Palhaço Carequinha, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro. "Eu amo dar aula e tenho orgulho da escola onde trabalho. Ela foi reinaugurada há seis anos, com uma infraestrutura de ponta", conta.
MUDANÇAS DE VIDA - Claudio superou o quadro depressivo com terapia, remédios e partidas de futebol
A realidade do entorno, no entanto, é difícil. No bairro pobre em que a escola está localizada, os jovens sofrem com a estrutura precária. "Eles não têm amor, respeito, cultura, comida. Falta tudo. Alguns pedem cesta básica, outros trazem receita médica perguntando se podemos comprar remédio. Conviver diariamente com essas situações começou a me deixar muito triste", relembra.
Dois episódios em especial não saíam da sua cabeça. O suicídio de um aluno gay que chegou a registrar o que iria fazer numa redação não corrigida a tempo pela professora. E o castigo aplicado por um pai que deixou o filho por três dias sem comer por causa de uma suspensão. Somaram-se a isso tristezas pessoais - a morte de um colega confundido com um policial, um aborto espontâneo sofrido pela esposa e o falecimento da avó. O ano de 2014 estava difícil.
"Todos nós, em algum momento da vida, enfrentaremos traumas, mas quem passa por muitos deles seguidamente tem mais chance de lidar com a depressão", diz Fernando Duarte, psiquiatra que atua em Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
Claudio lembra de estar todo o tempo irritado, desanimado, sofrer com insônia, se afastar da sala de aula para chorar e viver com constantes pensamentos negativos. Não percebeu sozinho que precisava de ajuda, mas teve sorte. Durante um período, que coincidiu com o momento em que atravessava o episódio depressivo, o setor de Gestão de Pessoas da Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro manteve uma equipe de saúde e bem-estar para apoiar os educadores. Foi a coordenadora do programa que o convidou para conversar com a assistente social.
Encaminhado para o psicólogo e para o psiquiatra, ele ficou dois meses afastado da sala. Começou a fazer terapia - que continua até hoje - e a tomar antidepressivos - que, por recomendação médica, já largou. Também mudou seus hábitos. Voltou a jogar futebol, esporte que tinha parado de praticar por causa da rotina de trabalho intensa, e a sair de casa, inclusive para assistir partidas do seu time, o Palmeiras, em outros estados.
Claudio ainda aprendeu a ter controle sobre seus pensamentos: "Se eu imagino o futuro, que os jovens vão reproduzir o que os pais fizeram, virar bandidos e matar como mataram meu amigo, volto a entrar num ciclo de desesperança e a ficar questionando o meu papel dentro da escola". Por isso, foca sempre no presente.
Manter-se positivo é uma das receitas contra o negativismo que permeia a depressão. Para a psicóloga Ciça Maia, especialista em terapia cognitiva pela USP, a pessoa que apresenta esse quadro costuma ter um olhar enviesado e é preciso que ela
retome o senso de realidade. "O depressivo acha que tudo sempre vai dar errado, mas sabemos que não é assim. Há muitas chances das coisas darem certo e isso também depende da forma como julgamos a situação', afirma.

Um olhar compreensivo para si mesmo
NOVA FUNÇÃO - A readaptação foi o caminho de Rosi para continuar na escola
Nem sempre o problema é superado em um prazo de 30 dias prorrogáveis por mais 30. Voltar a encarar situações que nos tiraram do prumo pode demorar, ser cheio de altos e baixos, de remédios que, em vez de melhorar, pioram.
Professora de Geografia de escola estadual em Mococa, no interior paulista, Rosi Tomura aceitou o desafio, em 1999, de dar aula em uma escola localizada na periferia da cidade. Encontrou por lá não só um entorno hostil mas estudantes que refletiam a agressividade em suas atitudes. Ela também já andava com a saúde emocional abalada desde a gravidez de sua
primeira filha, quando enfrentou um quadro que, tempos depois, foi diagnosticado como depressão.
Foi com esse histórico que ela recebeu a notícia que um aluno matou outro a facadas nos arredores da escola. O motivo: a vítima não quis dar um cigarro para o agressor. "Já estava difícil para mim, eu vivia chorando, mas depois desse episódio passei a ter muito medo. Na rua, suava, tremia e olhava para trás a todo instante para ver se não estava sendo seguida." Começou a enxergar os jovens como se eles fossem gigantes e assustadores. "Ao final de um dia de aula, falei para mim mesma: nunca mais volto aqui. Cheguei em casa, peguei todo o meu material de trabalho, que demorei anos para juntar, joguei na calçada e um catador de material reciclável levou", conta.
Acompanhada por psicólogo e psiquiatra foi diagnosticada com fobia social, um transtorno de ansiedade. Iniciou o tratamento com remédios e, depois de meses de total isolamento e prostração, voltou, aos poucos, a fazer coisas simples, como atravessar a rua sozinha.
"Existe uma ansiedade que é normal. O problema surge quando a angústia é permanente, incapacitante e gera grande sofrimento", explica o psiquiatra Rodrigo Bressan, organizador do livro Saúde Mental na Escola. Novamente, a quebra da cadeia de pensamentos se mostra uma estratégia eficaz. Quando conseguiu perceber que as pessoas não estariam o tempo inteiro a julgando, Rosi conseguiu avançar. Em 2002, dois anos após ter se afastado da escola, ela retornou como professora readaptada. Estar fora da sala de aula foi uma condição médica para que ela não mantivesse um contato tão direto com os alunos.
Para o psicanalista Chafic Jbeili, especialista em saúde do professor, ser readaptado não significacontato tão direto com os alunos. que a pessoa fracassou. "Podemos fazer uma associação com um soldado diagnosticado com estresse pós-traumático. Ele consegue retomar sua vida depois de um 
tratamento, mas voltar à guerra provavelmente reativará os sintomas do transtorno."Fora do campo de batalha, porém, ele poderá desenvolver outras atividades.
Para isso, é preciso superar outra barreira: o estigma. Até entre os pares, os readaptados são encarados como preguiçosos, encostados ou fracos. Não ter o sofrimento reconhecido é motivo de mais tensão. Para Rosi, a situação é outra. Membro do conselho escolar da EE Zenaide Pereto Ribeiro Rocha, ela organiza materiais de Geografia para os alunos e atua junto com a orientação educacional, planejando ações para reduzir as faltas e o abandono.
É melhor prevenir
Quando se trata de saúde, o velho conselho aí de cima vale mais do que nunca e precisa ser colocado em prática quanto antes. Ficar sentado - e estressado - esperando o número de alunos nas salas diminuir, o salário aumentar e as famílias participarem não parece uma boa saída.
Há outras estratégias capazes de ajudar. Algumas mais fáceis como instituir pausas no dia para relaxar. E outras mais difíceis como tirar algo positivo das situações e levá-las com bom humor. É isso que ocorre quando em vez de entender a desobediência de um aluno como um desaforo, você enxerga o episódio como um indício de que ele precisa da sua ajuda para encontrar um caminho e mudar a forma de ser.
Deixar de lado as emoções e focar em encontrar soluções é dica unânime dos especialistas. Outra é poder contar com uma rede
de apoio formada na escola. Pesquisas do mundo inteiro mostram que conversar com os pares é uma das principais formas de aliviar o estresse. A recuperação é mais rápida e a intensidade da reação é menor quando o professor tem o suporte dos colegas, que entendem o que ele está passando.
Os gestores, portanto, têm um papel central na construção de um bom ambiente de convívio, o que por si só ajuda a minimizar os desequilíbrios emocionais. Segundo Chafic, comemorar conquistas e destacar qualidades dos docentes é mais saudável do que expor problemas e fracassos. "Isso faz parte da implantação de uma agenda positiva, que pode incluir, ainda, momento formais de troca de experiências bem- sucedidas."
Mobilizar recursos, sejam eles coletivos ou individuais, é um caminho para diminuir as situações desagradáveis e reencontrar as motivações e paixões que levaram à escolha da docência. Foi assim com Everson, Claudio e Rosi. Queremos que seja assim com você também.


Fotografia: Elisa Mendes / Rafael Facundo / Milena Aurea Bordados: Patrick Cassimiro 

http://gestaoescolar.org.br/

domingo, 20 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

EMPATIA E SOLIDARIEDADE

Artigo jornal estadão , blog dos colégios, edição 11.11.2016, bem oportuna e necessária. Vale conferir.
O termo “empatia” é usado em educação como a capacidade de educandos e educadores se identificarem com o outro, sabendo se colocar no lugar do outro do ponto de vista tanto cognitivo como afetivo. Renato Janine Ribeiro, na roda de conversa sobre empatia na educação de crianças e jovens organizada pelo Instituto Alana e pela Ashoka, diz que o termo “empatia” significa “sentir e sofrer no lugar do outro; pathos é a palavra grega que significa paixão, relacionada ao sofrimento”.
Na Filosofia, continua Renato Janine Ribeiro, “pathos pode se opor a duas outras palavras: “ação”, em que somos ativos (na paixão somos passivos) e “razão” (na paixão somos irracionais)”. Portanto, empatia tem um sentido de passividade e irracionalidade. Ainda aponta que, na tradição filosófica, “quando se adota uma conduta baseada na racionalidade, é possível sermos mais donos do nosso próprio destino, diferentemente de quando agimos pela paixão, em que somos possuídos pelos sentimentos (dor ou alegria)”.
Citando Rousseau, Renato Janine Ribeiro também diferencia doutrinação de educação. “A palavra ‘educação’ em latim significa justamente sair, ir (ducare) para fora (ex), ou seja, o educando sai de uma situação para ir para outra”. Afirma que, do seu ponto de vista, “a empatia não é natural, ela é formada, desenvolvida no processo educacional”.
Já o termo “solidariedade” significa “caráter, condição ou estado de solidário
1. compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas 2. laço ou ligação mútua entre duas ou muitas coisas ou pessoas, dependentes umas das outras (…) 3.sentimento de simpatia, ternura ou piedade pelos pobres, pelos desprotegidos, pelos que sofrem, pelos injustiçados etc. 4. manifestações desse sentimento com o intuito de confortar, consolar, oferecer ajuda etc. (…) 5. cooperação ou assistência moral que se manifesta ou se testemunha a alguém, em quaisquer circunstâncias (boas ou más) (…)”.
Se buscarmos o termo “solidário” no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa vamos encontrar:
1. em que há responsabilidade recíproca ou interesse comum (…) 2. que depende um do outro; interdependente, recíproco 3. pronto a consolar, apoiar, defender ou acompanhar alguém em alguma contingência (…) 4. que sente do mesmo modo, partilha dos mesmos interesses, opiniões, sentimentos etc., concordando, dando apoio; irmanado (…).[1]
[1] Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
Como pode ser constatado, o termo “solidariedade” tem um significado muito próximo ao de “empatia”, pois também está relacionado a compartilhar o sofrimento do outro. Entretanto, a solidariedade tem um componente para além do sentir, que é o da ação. Não se restringe apenas a sofrer junto, mas conforta, propõe ajuda
Justamente por isso é que no Colégio Equipe usamos o termo “solidariedade” e não “empatia” como um dos valores que sustentam a nossa prática na direção de uma educação transformadora. Pretendemos que nossos alunos sejam capazes de se colocar no lugar do outro, principalmente do outro que sofre, ou seja, das pessoas menos favorecidas da nossa sociedade, mas também que sejam capazes de agir, de tomar atitudes que possam aliviar, confortar e, por que não, até mesmo eliminar o sofrimento do outro. Que sejam capazes, portanto, de se indignar com as injustiças e as desigualdades sociais e de agir para tornar nossa sociedade menos desigual, mais justa e humana.
Mas como ensinar solidariedade? Obviamente, não é incluindo-a como conteúdo a ser ensinado em algumas das disciplinas curriculares. A escola deve, em sua concepção de ensino e em suas escolhas metodológicas, criar condições para que os alunos desenvolvam atitudes solidárias. E como é um conceito relacionado à ação e não apenas ao sentimento e à cognição, a escola não só deve propor atividades que possam vir a colaborar para o desenvolvimento dessa postura como também deve incentivar que os próprios alunos criem e realizem ações nessa direção.
Há inúmeras situações didáticas no Equipe que visam desenvolver a solidariedade. Só para citar uma delas: o trabalho de monitoria entre ciclos e séries. Nele, alunos mais velhos acompanham o estudo dos mais novos ajudando-os não só no aprendizado dos conteúdos, como também a superar eventuais dificuldades. Como organizamos esse trabalho? Em primeiro lugar, não escolhemos os monitores – os alunos que querem participar dessa atividade se inscrevem. Segundo, os alunos interessados fazem uma formação em que discutem entre si e com educadores o papel de um monitor e também reveem os conteúdos das situações didáticas que vivenciarão. Também recebem informações pedagógicas sobre os alunos que vão orientar.
Depois atuam com eles tanto em sala de aula como em trabalhos de campo (atividade em que os alunos vão colher dados para refletir sobre uma questão de estudo). E uma última etapa, e não menos importante, é discutir e compartilhar com os educadores sua opinião sobre o trabalho do seu grupo de alunos e a sua própria atuação. Tanto os alunos monitores como os monitorados avaliam muito positivamente essa experiência.
Outros exemplos poderiam ser descritos. Propomos trabalhos em grupos; há atividades de monitoria também entre colegas da mesma classe; a cada final de bimestre ou trimestre os alunos fazem uma autoavaliação do seu processo de aprendizagem, assim como avaliam as propostas didáticas da escola e de seus educadores, discutindo os diferentes pontos de vista sobre elas; fazem trabalhos de campo em realidades sociais e culturais diversas da que estão inseridos; são incentivados a propor atividades na escola por meio do grêmio estudantil ou do conselho de representantes de alunos; assim como oferecemos a possibilidade de atuarem como mediadores de leitura, de brincadeiras e de arte com crianças e jovens de outras realidades sociais numa parceria com o Instituto Equipe.
Entretanto, cabe destacar que para uma educação que forme pessoas solidárias é fundamental que a escola e seus educadores estejam predispostos a aprender com os educandos Não aprender os conteúdos específicos do saber sistematizado pela humanidade que devem ensinar, mas aprender como ensinar, aprender que esses saberes devem ser ressignificados pelas novas gerações. Só com novos sentidos é que se pode chegar ao novo e propiciar mudanças, sempre na direção de uma sociedade mais justa e humana.

Luciana Fevorini
Diretora Escolar do Colégio Equipe

Este texto faz parte da publicação “A importância da empatia na educação” realizada pela Fundação Alana e Ashoka. Todos os textos podem ser acessados através desse link.


sábado, 12 de novembro de 2016

CUIDANDO DA ESCOLA

Corte de verbas, contribuições escassas, e a escola precisando de manutenção, de auxílio. Pessoas dispostas a ajudar e outras, estranhamente, fazem muito esforço para...atrapalhar. Porém, com o esforço comunitário de gestores, (que literalmente põem a mão na massa, trocando lâmpadas, parafusando carteiras, cadeiras...) professores, funcionários, pais, comunidade; enfim, pessoas que gostam da escola, da educação é possível conquistar objetivos.


Limpeza da caixa d'àgua



Dedetização

                                      Troca de filtros


                                  Troca de lâmpadas

                                  Troca de reatores




Torneiras novas, com filtros, na cozinha

                        Manutenção em ventiladores



              Roçagem do mato, manutenção no jardim.